O Conceito de prova em Carlo Ginzburg

Historiador italiano Carlo Ginzburg

Para a maior parte dos historiadores falar em “prova” no sentido de estabelecer uma evidência factual que ajude a comprovar algo, pode parecer no mínimo anacrônico, ou, para ser mais exagerado, pode ser ridicularizado quando, no meio acadêmico, preza a regra de que existem muitas verdades e que nenhuma anula a outra. Uma vez que o olhar do pesquisador compreende a realidade de acordo com o contexto e principalmente das múltiplas interpretações das fontes.

Pode parecer meio paradoxal, mas vejamos exemplos dentro da própria historiografia. Quando uma verdade é substituída por outra, simplesmente porque surgem novas evidências que permite um novo olhar sobre o contexto. Não só é necessário, para isso, o surgimento de novas documentações, mas também a própria consciência contemporânea ajuda a criar novos questionamentos como também os avanços metodológicos que possibilitam historicizar esses mesmos documentos através de nova vertente.

Estamos falando das muitas verdades, das muitas realidades, do número reduzido de documentos que afunilam ainda mais a compreensão da realidade. Estamos lidando com um campo que Marx definiu da seguinte forma: “A história só acontece duas vezes, a primeira como fato (tragédia), a segunda como farsa”.[1]

Para melhor entendimento podemos pensar o seguinte, que a história, enquanto instrumento nas mãos do historiador, é uma construção a partir de seu olhar e indagações das fontes por ele estabelecidas. A história sendo uma construção, uma narrativa, funciona como um verdadeiro espelho do presente refletindo um passado imutável. Sendo que este espelho de vez enquando necessita ser ajustado para melhor refletir este passado. Estaria, portanto, na situação do investigador que se esforça para reconstruir um crime ao qual não assistiu.[2]

É a necessidade deste ajuste que consiste as muitas verdades. Vez ou outra algum historiador, em especial, olhará para o reflexo no espelho, e vai perceber que a imagem está distorcida. Que necessita de um ajuste para corrigir a distorção. Surge então, a sua visão sobre a imagem. Que não necessariamente anula ou invalida a antiga.

Carlo Ginzburg, historiador italiano, pensa a “prova”, dentro da historiografia, no seu sentido latino. Significando por um lado “validar” e, por outro, “experimentar”.[3] Esta linguagem sugere que se submetam os materiais da pesquisa a uma avaliação permanente, segundo Ginzburg, “provando e confirmando”.

Fazendo uma alusão a isto, seria o mesmo que considerar os ajustes constantes para se obter melhor imagem do espelho. Tais experimentações validariam, ou, provariam a verdade na narrativa histórica do historiador.

A diferença da palavra prova do grego clássico para as línguas de origem latina é que, no grego, esta palavra tem o significado impreciso. Quando muitas das vezes era relacionada a “evidence”, ou seja, evidências. Se o que vemos são só evidências, não necessariamente persiste a verdade dos fatos. Uma evidência não constitui uma “verdade”, mas, se colocarmos nos termos latino, podemos considerar a confirmação, a prova de que algo se deu naquelas circunstâncias.

Por mais que tentemos nunca alcançaremos o passado na sua amplitude e complexidade e exatidão que muitos ambicionam. Por mais que digam que o passado está vivo, isto só se dá por causa de nós, os historiadores, que debruçamo-nos sobre as documentações na busca de alcançar as luzes que fazem as imagens surgir através do espelho.

Esta discussão vai além quando consideramos a visão cética e antipositivista de alguns que consideram que a historiografia somente se propõe a convencer. Que seu único fim é a eficácia, não a verdade.[4] Rebaixando assim a narrativa histórica a textos ficcionais, tal como um romance, que não tem nenhuma relação com a realidade, ou seja, que simplesmente constrói um mundo textual autônomo sem nenhuma ligação com a realidade com a qual se refere.

Para isto, e Ginzburg é um deles, torna-se imprescindível que a “prova” não seja sufocada pelos céticos que insistem em classificar a historiografia a um dos ramos literário. A história não é um discurso retórico sem comprovações metodológicas e científicas. Para isto trabalhamos com bases teóricas, metodológicas e documentais.

Pensemos um pouco na narrativa, na trama que dá significado e estrutura, também no objetivo e recorte do tema definido. Veremos que esta construção, totalmente escolhida, e não imposta, vai definir o caráter parcial do historiador, sem que isto, lhe roube a credibilidade.

É o historiador quem decide se irá escrever sobre a derrota de Napoleão ou sobre a vitória dos ingleses. Se sob o ponto de vista do general ou a partir dos questionamentos do soldado que se arrisca no fronte. Levando-se em conta o caráter da documentação, as perguntas sob elas feita, a história a partir daí terá um significado ímpar e único, de algo que foi muito mais amplo e complexo. E que não pode ser concebido na sua totalidade como ocorreu. Uma vez que se torna impossível saber dos dois lados da batalha o que pensavam os saldados, se naqueles dias alguém deixou de comunicar uma mensagem importante que definiria a vitória de um dos lados, se naqueles dias as tropas estavam insatisfeitas com o seu general e isto acabou influenciando os resultados. Em fim, como disse Paul Veyne: “… a banalidade do passado é feita de pequenas particularidades insignificantes que, ao se multiplicarem, acabam por compor um quadro bem inesperado.” [5].

Aprofundando um pouco mais nas perspectivas dos atores da batalha de Waterloo, veremos que Napoleão possuía apenas sua perspectiva do evento. Só o seu testemunho não da conta do conflito em seus detalhes. Estamos afirmando que, volto a citar Veyne, “… a história é, em essência, conhecimento por meio de documentos.” [6]. Para além de todos os documentos consiste a narrativa, pois nenhum deles pode ser o próprio evento, por meio deles não vemos o passado ao vivo, como se estivéssemos lá. Os documentos são testemunhos, de possibilidades, de provas, comprovações, deduções.

Até aqui foi possível ver que a história é na verdade uma narrativa de fatos e acontecimentos reais que tem o homem como ator[7]. Que as fontes por se só não descrevem o passado, que a verdade é o fim último de qualquer historiador, e que, essencialmente, não necessariamente partimos da verdade para chegar em algo. Mas, de algo para se chegar a uma verdade.[8]

A argumentação consiste na busca de compreender a realidade, o historiador sabe onde olha e o que olha.[9] Ele seleciona, constrói , defende posições e interesses. Propõe e reproduz um regime de verdade. O lugar-tempo, segundo José Reis, é uma sociedade, uma instituição, uma política.[10] Ou seja, a busca pela verdade dentro da história consiste em saber que essas relações humanas fazem parte da realidade social que ela retrata.

Para a escola metódica, dita positivista, o passado é real e que não só pode, mas deve ser restaurado na sua integridade.[11] O erro deste pensamento consiste no entendimento de que a verdade histórica não pode se reduzir a um enunciado simples, homogêneo. Obtém-se algo próximo examinando todas as leituras possíveis de um objeto. O exame exaustivo de um tema é que diz a verdade. Como disse o próprio José Carlos Reis: “Conhecer a verdade de um tema histórico é reunir e juntar todas as interpretações do passado e do presente sobre ele”.[12]E a exemplo do próprio Ginzburg, podemos considerar que: “… é possível aceitar que novas explicações de um dado fenômeno histórico são sempre possíveis, uma vez que todos os enunciados científicos estão abertos à refutação, e são, portanto, em certo sentido provisórios.[13]

Os fragmentos do passado que chegam às mãos do historiador lhe possibilita criar um quadro convincente do passado, mas tal quadro é uma reconstrução. Como vimos um pouco acima, assim como nas demais ciências, os questionamentos e refutações fazem com que o passado seja sempre revisitado. E antes de tudo, não necessariamente buscamos provar algo, mas que o sentido de prova, na relevância de se “validar” e buscar a verdade por meio destas provas, (documentos) será sempre um norteador para que a argumentação tenha consistência.

Se levarmos a finco que não estamos buscando provar nada, não estaremos sendo menos relevantes ou desacreditados, não buscamos provar nada realmente. Simplesmente buscamos nos aproximar o máximo possível deste passado, às vezes distante, às vezes próximo. Na tentativa de elucidar e compreender as conexões humanas nas suas esferas política, econômica ou cultural.

Concluímos observando que a “prova” consiste na afirmação de uma “verdade” que não pode ser negada por meio da historiografia. Sem perder de vista que o passado real na sua essência não pode ser reconstruído na sua totalidade. O fim que os historiadores têm em vista quando recorrem a tais expedientes é aproximar-se ao máximo possível do que ocorreu.[14] Podemos nos aproximar desta verdade num esforço exaustivo, mas compensador, de todas as leituras possíveis do objeto. A verdade não se trata de um ponto de vista; se trata de uma busca incessante nas fontes que traduzem a realidade social humana.


[1] MARX, Karl. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. Ed. Martin Claret, 2008.

[2] BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da história, ou, O oficio do historiador. Jorge Zahar Ed., 2001 p 69.

[3] GINZBURG, Carlo. Relações de força: história, retórica e prova. Cia das Letras, 2002. p 11.

[4] GINZBURG, Carlo. Relações de força: história, retórica e prova. Cia das Letras, 2002. p 48

[5] VEYNE, Paul. Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história. Editora UnB. 1982. p 42

[6] Idem, op., cit. p 52

[7] Idem op., cit. p 53

[8] GINZBURG, Carlo. O fio e os rastros: verdadeiro, falso e fictício. Cia das Letras. 2006. p 14

[9] REIS, José Carlos. História e teoria: historicismo, modernidade, temporalidade e verdade. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2005. p 170

[10] Idem, op., cit. p 170

[11] Idem, op., cit. p 156

[12] Idem, op., cit. p 175

[13] Entrevista do historiador à revista eletrônica Eurozine, segundo tradução de Maria Betânia Amoroso para a 10a reimpressão da edição brasileira (São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.34).

[14] CROCE, Benedetto. História como história da liberdade. Editora Topbooks, 2006. p 176

Referências Bibliográficas:

CROCE, Benedetto. História como história da liberdade. Editora Topbooks, 2006

GINZBURG, Carlo. Relações de força: história, retórica e prova. Cia das Letras, 2002

GINZBURG, Carlo. O fio e os rastros: verdadeiro, falso e fictício. Cia das Letras. 2006

MARX, Karl. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. Ed. Martin Claret, 2008.

REIS, José Carlos. História e teoria: historicismo, modernidade, temporalidade e verdade. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2005.

BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da história, ou, O oficio do historiador. Jorge Zahar Ed., 2001

VEYNE, Paul. Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história. Editora UnB. 1982.

Por Edielson B. do Carmo – Graduando em História, UNEB-CAMPUS XIII

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2 respostas para O Conceito de prova em Carlo Ginzburg

  1. Lílian Oliveira dos Santos disse:

    Ótimo texto para refletirmos sobre um dos ofícios desempenhado pelo historiador, que é a construção de uma narrativa histórica, buscando sua constatação através das fontes documentais, além de trazer uma importante discussão teórica-metodológica. Com isso, o autor do texto no exercício da sua escrita, reafirma e coloca aspectos fundamentais para análise e investigação na escrita da história, evidenciando assim, um olhar contextualizado acerca das realidades. Parabéns colega…abraços fraternos

  2. Jefferson Brito disse:

    Ótimo texto, são textos assim que nos faz querer cursar História.

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